Internet não é mais “brincadeira”

Obama
Interessante a notícia que ganhou destaque nos principais sites de tecnologia nesta última semana. O presidente americano Barack Obama emitiu uma ordem para que seja melhorada a segurança online dos EUA.

A ordem assinada por Obama solicita não somente uma intensificação das leis, mas uma maior troca de informações entre governo e empresas de internet, além da criação de um modelo de melhores práticas que garanta a cibersegurança.

A movimentação do governo americano é natural. Somente em 2012, o número de ciberataques ao Departamento de Segurança Interna dos EUA cresceu 52%.

A ação do presidente americano faz parte de um movimento mundial de leis, sanções e projetos para regulamentar o uso da internet. No Brasil, essa movimentação se reflete ao longo das discussões sobre o Marco Civil da Internet.

Quanto mais atividades têm como base a internet (entretenimento, transações financeiras, comunicação, comércio, saúde, educação, segurança), maior a atenção dos governos em relação à rede.

A discussão sobre a cibersegurança dos EUA interessa a outros países. Os EUA têm uma capacidade de grande influência externa quando o assunto é internet. Quase toda a infraestrutura física da rede tem como base o país americano.

Por enquanto, os debates giram em torno do quanto a privacidade de pessoas e empresas será sacrificada em troca dessa maior cibersegurança. A meu ver, existe um outro ponto. A maioria das discussões deixa de lado a questão de que, hoje em dia, o conceito de “device agnostic” da internet já foi absorvido pelo mercado.

Grande parte dos projetos e debates de cibersegurança se pauta como se a internet estivesse somente conectada a computadores (desktop) e não a carros, brinquedos, tablets, mobília, aparelhos de TV; enfim, a quase qualquer objeto. Além disso, a questão da infraestrutura física da internet muitas vezes fica de fora. Ou seja, a discussão é mais sobre softwares e aplicativos do que sobre a segurança da estrutura física da internet, como cabos submarinos e redes.

Facebook QG

Não foi somente a ordem para o aumento da segurança online que chamou a atenção nesta última semana. Durante o discurso anual do Estado da União, Barack Obama intensificou a importância da reforma das leis de imigração. Um dos principais lobbies interessados na atualização dessas leis é justamente o setor de internet.

Por meio da reformulação, a expectativa é que seja criado um tipo de visto que permita que empreendedores nascidos fora dos EUA possam permanecer “definitivamente” no país. O visto ganhou o apelido de “startup visa“.

O documento evitaria o que aconteceu com o israelense Asaf Darash. Mesmo após ter encerrado o seu doutorado na Universidade da Califórnia e ter fundado uma startup americana que ia de vento em popa, gerando empregos e inovação, Darash foi deportado dos EUA. O seu visto de trabalho não permitia que ele fundasse uma empresa em solo americano.

O pessoal da área de TI nos EUA anda bem animado com a reforma. A aprovação das novas leis de imigração ajudará a reforçar uma vocação natural dos EUA, ser um país imã de talentos e empreendedores da área de tecnologia – 40% das mais bem sucedidas empresas americanas de tecnologia da informação foram fundadas por imigrantes ou filhos de imigrantes.

É comum as pessoas irem aos EUA para estudar e, no meio da trajetória, decidirem ficar no país para colocar em prática o que aprenderam nos estudos (“colocar em prática” entenda-se “fundar uma empresa”).

Existe um incentivo maior para que trabalhos de pesquisa sejam transformados em produtos. Além disso, cada vez mais, escolas americanas de negócios têm como “trabalho de conclusão de curso” justamente a missão de fundar uma empresa em solo americano. Dada a quantidade de estrangeiros nas universidades, é um caminho natural ter leis de imigração que facilitem a vida dos “novos empreendedores”.

Tanto a ordem do presidente americano para intensificar as leis contra ciberataques quanto o seu discurso engajado em melhorar as leis de imigração, facilitando o desenvolvimento do setor de internet, são um exemplo do quanto a rede passa a ser vista, cada vez mais, com relevância e seriedade por governos.

À medida que a internet se torna a infraestrutura dominante de comunicação e entrega de informação, ela atrai para si maior atenção. E, a partir disso, as tentativas de governos e do próprio mercado em regulamentá-la.

Assim como em 2012, neste ano, leremos muito sobre regulamentação e lobby de empresas de internet, e leis para facilitar o mercado digital.

4 respostas a “Internet não é mais “brincadeira””

  1. Tiago, boa e oportuna matéria postada.
    É fato que se constata que o problema do reforço de segurança nos Estados Unidos (a internet nasceu na área militar desse país) não afeta negativamente a liberdade de expressão dos meios de comunicação.
    No entanto, ao contrário do paradigma americano, em países, como os da América Latina, falar em segurança é, desde logo, censurar, limitar e reprimir os meios de comunicação.
    A liberdade tem como limite a responsabilidade. São faces da mesma moeda, e os americanos do Norte entendem muito bem disso!

    Guedes.

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  2. Tiago, ótimo post e excelente blog/website.
    Vou comentar apenas a reforma das leis de imigração. As leis imigratórias dos EUA ainda estão bem engessadas. Os EUA deveria seguir/copiar o modelo australiano de profissionais altamente qualificados e adaptá-lo — como já foi realizado pelo Reino Unido e Canadá. Para só assim possibilitar a retenção de grandes talentos e evitar a repetição de casos como o de Darash.
    Abraços
    Adilson

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  3. Que bom que está tudo bem contigo aí. Vi as fotos no thumblr!
    Já que não há comentários lá, faço um aqui em relação ao almoço com editor do BGlobe. Me chamou a atenção a afirmação dele abaixo, que mostra que já desceram do salto-alto, já abandonaram o auto-engano de que só é relevante o que está embaixo do ‘masthead’:

    ‘Actually, in the digital age, the problem of American newspapers is not about money (Boston Globe is cash-positive). It is about relevance. How to stay relevant in a hypercompetitive market? In US, legacy newspapers have to deal with the competitiveness of blogs and born-digital publications’

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    1. Obrigado, Javoski! Sim, está tudo bem comigo.

      O bate-papo com o editor do Boston Globe foi muito bom. Os caras já estão em outra.

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