O correspondente da Wired Andrew Blum não somente sentiu o cheiro de internet como também tocou nela. O jornalista americano é autor do recém-lançado Tubes: A Journey to the Center of the Internet (304 páginas/Editora Ecco), um dos livros mais relevantes sobre internet que li nos últimos meses.
Inspirado pela falta de conexão de internet devido à quebra de um cabo em sua vizinhança, no bairro do Brooklyn, em Nova York, Blum saiu em peregrinação pelo mundo para conhecer realmente a internet, a sua estrutura física.
O colaborador da Wired passou dois anos visitando datacenters, operadoras de telefonia, hubs de internet, obras de construção de cabos submarinos, entrevistou engenheiros, pesquisadores e outros pioneiros da internet. Enfim, fez um raio-X da engrenagem física que sustenta a rede.
Para Blum, a internet cheira a uma mistura entre o odor de ar-condicionado e de ozônio liberado pelos capacitores dos equipamentos. Dependendo de qual local você esteja na infraestrutura, a internet pode ter cheiro de bolor ou borracha queimada.
O livro de Blum se apóia num conceito comum na área de TI e telecom – de ver a internet como uma plataforma com duas camadas.
Em uma camada estão as aplicações – Facebook, Twitter, Gmail -, é aberta, colaborativa, com diversas empresas e baixíssimas barreiras de entrada. Na outra, está a infraestrutura, as barreiras de entrada são altas e é explorada por poucas empresas – as empresas de telecom.
Sem a infraestrutura, a camada de aplicações não existe.
No livro, Blum faz justiça a empresas e engenheiros de telecom ao mostrar o quanto eles foram importantes para a consolidação da internet – construíram e investiram na infraestrutura de rede, enquanto muitos achavam que a internet era uma “moda passageira” ou “algo muito novo que não merecia atenção”.
Aliás, até hoje, quando geralmente se fala em “internet”, a camada de aplicações vem logo à mente da maioria das pessoas.
Não é à toa que isso acontece. A visão que ainda circula na imprensa, entre especialistas e parte do meio acadêmico é a da internet do ponto de vista da camada de aplicações. Uma imagem que deixa de lado a questão geográfica e física da infraestrutura da internet.
Ademais, a internet chega hoje de forma bastante flexível para os usuários finais – por meio de smartphones, laptops, vídeos-games, fazendo com que a maioria das pessoas não se preocupe em saber a sua origem ou estrutura física.
Em parte, é uma pena que isso aconteça, pois a partir do conhecimento de sua infraestrutura conseguimos ter uma visão mais holística e prática sobre essa plataforma de comunicação e de distribuição de informação, que se tornou a principal intermediária da produção cultural e simbólica de nossos tempos.
Ao ter contato com a infraestrutura, uma das primeiras abstrações a cair por água abaixo é a de que na internet a questão geográfica não importa.
O setor financeiro há muito tempo percebeu a importância da geografia e topografia da internet. Uma das principais preocupações na área é a questão da latência entre servidores. Quanto maior a necessidade de os dados financeiros passarem por diversas redes, maior o risco de os mesmos demorarem para chegar do outro lado.
Ou seja, no setor financeiro, quanto mais próximo da fonte de informação estiver um servidor, melhor. Essa preocupação faz bastante sentido no setor de corretoras da Bolsa – milésimos de segundos no atraso de envio de um dado podem causar a decisão errada de um corretor.
Não é preciso ir muito longe nos exemplos. Lembre-se da diferença quando, na partida de algum jogo online, você que está no Brasil é transferido para um servidor não-local, alocado nos EUA. Com certeza, a sua partida enfrentará algum tipo de lag. Dependendo de onde estiver o servidor, a experiência de jogar online e em rede será diferente.
Basta lembrar também que, em 2007, a organização terrorista Al-Qaeda tinha planos de destruir o prédio da Telehouse, em Londres, o maior coração da internet na Europa. Caso o hub de Londres tivesse sido atacado, uma boa parte da Europa teria sofrido um apagão na internet. Ou seja, os terroristas já perceberam a importância e a fragilidade da infraestrutura da internet.
Não é à toa, portanto, que, em algumas cidades americanas, a questão da localização dos datacenters é tão importante que ela já faz parte do planejamento urbano.
A Google, por exemplo, trabalha com o conceito de “content delivery network (CDN)” – cópias dos conteúdos mais acessados em sites como YouTube ficam em servidores o mais próximo possível das residências dos usuários. Essa proximidade evita problemas que podem atrapalhar a experiência, como congestionamento de dados e alto custo de banda com transmissão.
Quando, em 2010, a Google comprou o número 111 da Oitava Avenida, em Nova York, ela não estava pensando em incrementar a sua parte comercial para ficar mais próxima de seus principais clientes. Na realidade, a intenção da empresa era outra (mais uma vez, o RP da Google passou a perna nos jornalistas). O 111 da Oitava Avenida é um dos principais hubs de internet do mundo, ponto de conexão de diversas redes. A aquisição foi como se a empresa aérea American Airlines tivesse comprado o aeroporto de La Guardia, nos EUA.
Enfim, quando se fala em internet, a questão geográfica é importante. Se olharmos para a internet de forma holística (aplicações + infraestrutura), vemos que ela não apagou as distâncias, mas tornou os seus traços mais visíveis.
Além de uma visão mais prática, o que difere a camada de aplicações da de infraestrutura da internet é a questão do sigilo. Ou seja, um cenário bem diferente dos conhecidos campus de desenvolvimento de aplicações e negócios da Google, no Vale do Silício, repletos de recursos para atrair a atenção da imprensa e de quem mora por perto
Segundo Blum, é mais fácil descobrir a verdadeira fórmula da Coca-Cola do que como funciona o datacenter da Google.
A postura da Google não é única. Discrição é o termo que melhor descreve os pontos que são o “coração da internet” – datacenters, hubs de internet, casa das máquinas de cabos submarinos. Os “prédios da internet” são discretos.
Essa discrição não resume às construções, as pessoas que trabalham com infraestrutura também têm uma postura diferente. É um meio fechado. Apesar de terem um verdadeiro mapa da internet na cabeça e serem cruciais para a consolidação da rede, as pessoas que trabalham com a internet física não são capa de revista semanal e nem celebridade de badalados eventos sobre internet.
Blum participou de um dos encontros do North American Network Operators Group (NANOG), que reúne operadores responsáveis por conectar as principais redes mundiais, dinâmica que forma a base da internet – um conjunto de redes. Fazem parte desse seleto encontro executivos (engenheiros) das principais empresas fornecedoras de conteúdo para a internet – Google, Netflix, Facebook – e donos das principais redes do mundo – Tata, Comcast, Verizon, AT&T e Level 3.
É nesse evento que são fechados alguns dos principais acordos de peering – conexão entre redes com o propósito de criar um livre fluxo de informação entre os usuários das mesmas. Um acordo clássico de troca de tráfego é o da Google e da Comcast. Por meio de um link direto, os clientes da operadora têm acesso direto a buscas, emails do Gmail e vídeos do YouTube, evitando assim a necessidade de terceiros.
Segundo Blum, acompanhar um encontro do NANOG é ver a internet acontecendo na prática, as redes se formando. Os executivos da Google e Facebook são os mais solicitados. Operadoras de países mais pobres imploram por um link para as suas redes.
A divisão econômica se repete no “mundo da internet”. Como diria Blum em entrevista ao site da conferência Pop!Tech, do ponto de vista de infraestrutura, a internet é pequena e concentrada.
Na realidade, geograficamente a internet segue os mesmos caminhos do velho mundo. Com raríssimas exceções, a maioria dos cabos submarinos, responsáveis por permitir o tráfego global de dados, está próxima a cidades portuárias, como Lisboa, Nova York e Hong Kong.
Tubes: A Journey to the Center of the Internet tem alguns pontos negativos, como o detalhamento e o uso excessivos de termos técnicos. Para quem não é da área de TI, acredito que a leitura pode se tornar um pouco penosa. Talvez, numa versão em português, isso seja resolvido com a criação de um glossário ou a inserção de notas de rodapé (a intenção de Blum era fazer um livro que não fosse voltado apenas para as pessoas da área de TI; pelo visto, ele falhou nesse quesito).
No prefácio de Tubes, o jornalista conta que o objetivo do livro é contar a história da internet de forma mais completa. A maioria dos livros sobre a história da rede foi escrita nos anos 90 como se a internet fosse uma tecnologia madura e acabada (é distribuída, gratuita, aberta e ponto final), enquanto que, na prática, ela é uma infraestrutura tecnológica em constante transformação.
Segundo Blum, a própria estrutura distribuída da internet foi quebrada em 1995, quando ela se tornou finalmente comercial. Com o crescimento do conjunto de redes que faziam parte da internet, sua autonomia foi melhor alcançada por meio de pontos centrais (hubs) e não por intermédio de uma estrutura de malha, conforme os pioneiros da internet idealizaram nos anos 60.
Por isso, para o jornalista, até agora a história da internet é, na realidade, a história das metáforas sobre a internet. Basta perceber a quantidade de termos criada nos últimos anos para tentar descrever algo que é supostamente intangível – ciberespaço, estrada da informação, nuvem.
Acredito que o grande mérito de Tubes não está somente em apresentar a internet de forma palpável – não tão virtual quanto as pessoas sempre foram induzidas a acreditar -, mas também em mostrar que, na realidade, ela é uma criação humana.
Um dos pontos altos do livro é quando Blum conta a história de pessoas ligadas à internet que literalmente colocam a mão na massa. Personagens tais que podemos encontrá-los em qualquer lugar – o engenheiro que passa diversos dias longe da família para trabalhar na conexão de mais um cabo submarino de internet. Ou ainda o operador que passa as madrugadas no subterrâneo de Nova York, consertando e aprimorando as redes de fibras óticas da cidade.
Enquanto você está dando um “curtir” numa foto, publicando um post num blog ou assistindo a mais um vídeo no YouTube, você nem percebe isso, mas são esses anônimos que literalmente fazem a internet funcionar.
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Crédito das fotos: World of Oddy, Flood G, Bfishadow e divulgação (4,5 e 6)






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