Se as atuais plataformas de redes sociais pretendem ser um retrato de nossos relacionamentos sociais, elas estão na pré-história. Essa é uma das sensações que fica ao ler Grouped, de Paul Adams, um dos principais pesquisadores por trás do Google+.
A mecânica das atuais plataformas de redes sociais não consegue suportar e refletir nem 10% da complexidade dos nossos relacionamentos.
Para começo de conversa, os relacionamentos são tratados de forma cartesiana. É 8 ou 80. Você curte ou não curte alguma coisa. É amigo ou não de uma pessoa. Enquanto isso, na vida fora da internet, os nossos relacionamentos são bem mais complexos, caóticos e cheios de nuances.
Da mesma forma, as plataformas nos convidam a organizar, de forma consciente e binária, os nossos amigos e familiares em listas e círculos, enquanto que, no dia a dia, encaramos os nossos contatos de forma caótica e subconsciente. A todo momento, estamos tirando e colocando pessoas em nossos círculos.
Perto da controvérsia que foi criada em torno do seu lançamento, Grouped (168 páginas/Editora New Riders Press) tinha tudo para ser um dos livros mais vendidos na área de internet.
A polêmica começou em dezembro de 2010. Em uma história até hoje mal contada, Adams pediu, na época, demissão da Google após trabalhar como pesquisador de UX da empresa e ser um dos principais teóricos por trás do Google+.
Durante a sua passagem pela Google, chegou a escrever um livro sobre o assunto – “Social Circles“, que, logo após a sua saída da empresa, teve a venda vetada pela Google. Posteriormente, trechos do livro jamais lançado foram inseridos em Grouped. E, hoje, Adams está no Facebook.
O livro não é o melhor escrito sobre plataformas de redes sociais. É curto e superficial. Muitas das ideias já foram publicadas em diversos cantos. Mas faz o que poucos fazem – levar a análise para o lado sociológico e não tecnológico.
Precisamos entender mais de pessoas do que de tecnologia, decreta Adams.
Para o executivo do Facebook, a atual avalanche de informações e de opções faz que com nos voltemos, cada vez mais, para os nossos contatos mais próximos, que acabam funcionando como filtros de informações e conselheiros para a tomada de decisões.
Adams aproveita a premissa para atirar na teoria dos “influenciadores da web” – um pequeno grupo de pessoas (blogueiros, jornalistas, twiteiros e videocasters) que teria a capacidade de influenciar milhões na web.
Segundo Adams, pessoas muito conectadas não são, apenas por esse fato, altamente influenciadoras. Influência continua sendo algo muito difícil de mensurar. E mais – a ideia de “influenciadores” é feita com base em como gostaríamos que o mundo funcionasse do que como realmente é.
Na realidade, as redes sociais não são lineares como sugere a ideia de “influenciadores”. As redes são muito mais complexas.
O conceito de “influenciadores” é uma forma simplificada de ver as redes sociais.
Quando pensamos em influenciadores ainda estamos falando em canais de informação de via única. Um hub de pessoas capaz de induzir milhões.
Para Adams, as redes sociais são como o cérebro humano – sistemas emergentes. Para entendê-las devemos muito mais compreender a relação entre os seus componentes (em qual local da rede a pessoa está) do que as características individuais de cada um (número de seguidores).
Devemos classificar as pessoas de acordo com o seu lugar em nossas redes e não por demografia, características psicológicas ou número de conexões.
Um ponto interessante de Grouped é que Adams apoia algumas de suas reflexões em dados de uso do Facebook. E dados que nem todo mundo tem acesso.
Segundo Adams, é um mito achar que as plataformas de redes sociais criam novas relações. Na realidade, ajudam a reforçar as já existentes. Em média, uma pessoa tem 160 amigos no Facebook, contudo comunica-se diretamente apenas com 4 ou 6 deles.
As pessoas fazem muito “broadcast” nas plataformas de redes sociais. Contudo, na hora de utilizar os recursos de “mensagens privadas” ou de “chat”, uma pessoa mantém contato, em média, somente com 4 outras por semana.
Dinâmica seletiva que não é exclusiva das plataformas de redes sociais. Mesmo com a possibilidade de termos milhares de contatos na agenda do celular, 80% das ligações são para as mesmas 4 pessoas de sempre.
Na vida offline, temos não mais que 5 laços fortes de conexão. Na vida online, a quantidade é a mesma. Ou seja, nas plataformas de redes sociais, estamos nos comunicando com o mesmo pequeno e seleto número de pessoas.
Um dos estudos do Facebook detectou que, de maneira quase desproporcional, somos influenciados pelas pessoas com as quais temos laços emocionais. Quanto mais ligação emocional, maior a capacidade de induzir.
Laços emocionais dizem muito mais que número de seguidores. O que não chega a ser nenhuma novidade, segundo Adams. O que as plataformas de redes sociais fizeram foi deixar tudo isso mais evidente e consistente. As pessoas que mais exercem influência são aquelas com quem temos uma relação mútua (e não aquele cara cheio de seguidores que joga um montão de conteúdo em nossa timeline).
Ecoando os estudos de outro pesquisador – Eli Pariser, Adams conta que as atuais plataformas de redes sociais nos fazem acreditar cada vez mais nas mesmas pessoas e a seguir os mesmos pensamentos – a ideia de “bolhas de conteúdo” propagada por Pariser.
Adams recorre à neurociência para explicar por que as plataformas de redes sociais são tão fascinantes hoje em dia.
Em vez de trazer diversidade, elas nos fazem ter ainda mais contato com pessoas e ideias que vão ao encontro do que já acreditamos. Algo que o nosso subconsciente está sempre procurando – segurança e coisas já conhecidas. Em outras palavras, estamos o tempo todo correndo atrás do próprio rabo, buscando ligação com pessoas que pensam como a gente.
As atuais plataformas de redes sociais facilitam ainda mais esse movimento do nosso cérebro em buscar coisas conhecidas e seguras.
Para a tristeza dos “editores de mídias sociais”, somente uma minoria das pessoas usa as plataformas para consumir informação e notícias.
A grande maioria as utiliza como utilitários de comunicação – para conversar. Igual a um telefone.
Na realidade, compartilhar conteúdo e atividades é parte natural da conversa. Mais ou menos, como se dá quando um amigo liga para a gente para conversar e, no meio do bate-papo, ele acaba contando naturalmente que fez isso e aquilo.
Metade das conversas nas plataformas de redes sociais é sobre pessoas que não estão presentes. O motivo por que se gasta tanto tempo falando dos outros no Facebook ou no Twitter é simples – falar sobre as outras pessoas ajuda a entender melhor o que é socialmente aceito ou não. Entender como as pessoas reagem a várias situações auxilia no ato de moldar o nosso próprio comportamento.
Por isso que a fofoquinha faz tanto sucesso nas plataformas de redes sociais.
Segundo Adams, as pessoas não gostam de compartilhar informações factuais e objetivas, mas sim conteúdo que provoque emoções. Conteúdos positivos, interessantes e inspiradores são os campeões de “likes” e compartilhamentos.
Em suma, na “Era das plataformas de redes sociais”, o que gostamos mesmo é de compartilhar sentimentos e não fatos.
Veja também: Estamos “cadastrados” em redes sociais desde pequenos






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