Finalmente, neste final de semana, assisti a Erasing David, filme documentário que fez bastante sucesso na web no finalzinho do ano passado, e que trata de dois temas bem atuais – privacidade e abundância de dados.
Erasing David é protagonizado e dirigido pelo inglês David Bond, 39 anos, conhecido na área de mídia na Inglaterra (trabalhou para BBC).
No documentário, Bond tenta sumir durante 30 dias. Para isso, apaga informações pessoais em sites e plataformas de redes sociais, evita usar o celular, o cartão de crédito e deixar outros rastros pessoais. Nem a sua mulher que, no início do documentário, está grávida de 7 meses sabe para onde ele vai.
Bond contrata dois detetives para tentar pegá-lo. Ambos experientes, entre os clientes têm grandes empresas e escritórios de advocacia na Inglaterra.
É um documentário/experimento, estilo Super Size Me. Tem um quê de protesto.
A intenção de Bond é mostrar o quanto deixamos rastros, informações cruciais no dia a dia e que podem ser utilizadas por terceiros, além claro também o quanto é difícil atualmente para um cidadão passar por anônimo frente a governos e empresas.
A motivação para produzir o filme vem de um caso pessoal.
Semelhante a muitos cidadãos ingleses, em novembro de 2007, Bond recebeu uma carta do governo britânico, informando que o Child Benefit Office, responsável pelo subsídio dado a pessoas com filhos recém-nascidos, havia perdido CDs não somente com seus dados pessoais, mas com informações sensíveis sobre a sua filha.
O caso preocupou Bond e o deixou com a pergunta na cabeça – o quanto o governo e as empresas guardam de informações sobre a gente?
O filme mostra antes, durante e após o sumiço de Bond. Antes, o inglês conversa com psicólogos e especialistas em segurança da informação.
Durante o sumiço, Bond sai da Inglaterra se embrenha na Europa. O esconde-esconde entre os investigadores particulares e Bond é intercalado com depoimentos de especialistas, além de pessoas que tiveram seus dados pessoais usados de forma indevida.
O ponto alto do documentário acontece quando Bond requer a 80 empresas e instituições ligadas ao governo britânico relatórios a respeito de informações pessoais que têm armazenadas.
Pilhas e pilhas de papéis chegam à sua residência. O mais chamativo é o relatório enviado pela filial da Amazon na Inglaterra. A loja online guarda dados até dos amigos para os quais ele enviou presentes. São inúmeras páginas com dados pessoais de Bond.
O documentário começa bem, mas depois desanda. Bond acaba usando o celular e indo a lugares óbvios, como a casa dos pais.
E o mais decepcionante. Erasing David se propõe a discutir a quantidade de dados que, espontâneamente, colocamos na rede. No entanto, o que os detetives menos usam são as informações online de Bond, mas sim o tradicional método de vasculhar o lixo da casa de sua esposa.
O filme, sem querer, mostra como o lixo que produzimos diariamente é revelador. Lá estão informações sobre o que comemos, quantas pessoas estão em casa, onde trabalhamos, lugares e lojas onde estivemos recentemente.
Do meio para o final do documentário, é bem mais interessante acompanhar o trabalho detalhista dos investigadores do que a fuga mambembe de Bond.
Em suma, Bond perde a oportunidade de fazer uma discussão mais consistente e diferenciada sobre privacidade. Explora pouco identidade e reputação, dois temas relacionados à questão da privacidade.
Contudo, Erasing David tem um lado positivo. O filme nos ajuda a refletir sobre a falta de ponderação no atual debate sobre privacidade e excesso de dados.
De um lado, a paranóia. Do outro, a discussão simplória com base na premissa de que a privacidade morreu e não temos mais o que fazer (Erasing David fica mais no lado da paranóia. O próprio Bond fica paranóico no meio do documentário, acreditando que pessoas comuns estão perseguindo-o).
Esse tipo de divisão se reflete nos atuais debates sobre privacidade, muitas vezes esquece-se que os dados são adquiridos de duas formas – de forma anônima, um dado não poder ser ligado a um indivíduo. E de modo identificável, são associados a uma pessoa.
Na maioria das vezes, passa-se a impressão de que existe apenas e tão somente um tipo (a Slate abordou o assunto em recente artigo).
Outra questão é que existem abusos, mas dificilmente vemos o outro lado.
Graças ao Google armazenar dados sobre as buscas, podemos ter aplicativos como o Flu Trends, capaz de prever quando uma epidemia de gripe afetará uma região.
No Foursquare, deixamos muitas informações pessoais disponíveis, mas em compensação ganhamos conectividade e atenção dos amigos.
Reclama-se das milhares de câmeras de segurança espalhadas pelas grandes cidades, mas elas ajudam na redução e até na solução de crimes. Há dois pesos e duas medidas.
Nessa história toda, o certo é que, historicamente, por necessidade de conectividade, reconhecimento e atenção, as pessoas baixam a guarda da privacidade, mas isso não significa que ela morreu.
Veja também: “The Social Network” é sobre mobilidade social




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