O mais importante do lançamento do The Daily não foi o The Daily

“Novos tempos demandam novo jornalismo”, essa frase abre o editorial da primeira edição do The Daily, pioneira publicação exclusiva para iPad produzida pela News Corp.

O lançamento aconteceu nesta quarta-feira no Museu Guggenheim, em Nova York, com direito a presença de executivos da Apple e transmissão ao vivo pela web.

Já fazia tempo que o lançamento de uma publicação chamava tanto a atenção.

Apesar de ser 100% digital, o The Daily se revela como um produto híbrido, mistura de mídia impressa com outras mídias. A diagramação da maioria das matérias é feita em 2 ou 3 colunas, manchete, submanchete e foto – o The Daily emula mais uma revista impressa do que apresenta algo realmente novo. Trabalha com conteúdo exclusivo, mas nada muito indispensável por enquanto.

O preço? US$ 1 por semana ou US$ 40 por ano.

Perto do burburinho que foi criado esperava-se mais (continuo achando que os aplicativos mais interessantes do iPad são justamente os “utilitários de conteúdo” – Flipboard, Instapaper, Pulse News – e não os aplicativos de jornais e revistas).

Uma coisa que não ficou clara no lançamento foi em relação aos competidores do The Daily. Ao que tudo indica, o jornal/aplicativo da News Corp busca entrar no mercado dos jornais que são consumidos no caminho de casa para o trabalho (“daily commute”).

Ficou evidente no lançamento que, publicamente, a News Corp vê o iPad como um ponto importante a fim de melhorar a situação dos seus negócios. Oficialmente, a empresa investiu US$ 30 milhões no desenvolvimento da publicação.

Por incrível que pareça, para mim, o mais importante do lançamento do The Daily não foi o The Daily em si, mas o que vem junto com ele, o novo sistema de assinatura da App Store.

Até pouco tempo atrás, se você quisesse adquirir uma publicação no iPad havia apenas o sistema de compra avulsa. A cada edição você fazia a compra (até existe um sistema de assinatura em alguns aplicativos, mas você é enviado para fora, para o site da publicação. No caso, a Apple não faz a intermediação).

A partir do surgimento do The Daily, há a opção do sistema de assinatura – você paga um valor semanal ou anual e recebe automaticamente as edições no iPad. Tudo mediado pela Apple.

Por enquanto, o sistema de assinaturas está disponível somente para os leitores do The Daily. Em breve, será disponibilizado para outras publicações (segundo o Apple Insider, a partir de abril estará disponível) e é aí que pode começar o problema.

Com o novo sistema, todas as assinaturas deverão ser realizadas por meio da Apple, sendo que a empresa fica com 30% em cada transação feita pela App Store.

A justificativa para a porcentagem (já apelidada de “iPhone Tax”) é que a Apple está dando acesso a uma base grande de clientes em potencial (no caso, os próprios usuários da Apple).

O novo sistema de assinaturas deverá mudar um pouco a relação da Apple com as empresas de mídia. Essa relação deverá exigir muito mais jogo de cintura dos dois lados.

Ou melhor, daqui para frente, das duas uma: ou as empresas de mídia aceitam as regras da Apple e o seu novo sistema de assinaturas. Ou começam a produzir aplicativos que rodem no próprio navegador (algo próximo do Timeline Reader, da Associated Press), dispensando assim a necessidade de utilizar a App Store como intermediária.

Veja também: O iPad vai “reiniciar” o mercado de revistas?

8 respostas a “O mais importante do lançamento do The Daily não foi o The Daily”

  1. Dória, de jornalismo, única coisa que eu entendo é ler. Mas, como qualquer produto de consumo, é bom de vez em quando o fornecedor saber a opinião do consumidor. Nem é opinião, é coisa mais vaga, “achismo” mesmo… Seguinte. Aquele jornalismo de jornal, de jornal com mil e seiscentas folhas, acabou. Se ainda existe algum circulando por ai, é porque não se deram conta que morreram e vagam como alma penada. Jornalismo hoje se tornou coisa mais ampla, abrange o jornal impresso, as revistas, a televisão e principalmente a internet. Esta última, pra quem tem (e ainda existem muitos excluídos digitais), é a principal fonte de informação. Agem todos como eu, acordam, enchem a xícara de café e ficam lendo as noticias na tela e vagando ao sabor do interesse ou da distração. Dai que aquela idéia antiga de que a imprensa derruba governo, forma a opinião do leitor, aquela coisa grandiosa que o jornalista achava que estava fazendo como sua missão especial pra mudar o mundo na face da terra, já era. Até porque a idéia do leitor é de que o jornalista e/ou jornal tirou aquele papo todo da internet. O jornal impresso vai encolher, vai ser grátis, vai ter notícias curtas, comentários miúdos meio sociais, pro leitor ler de um só folego, enquanto o carro espera no semáforo, ou enquanto ele vai ao banheiro. Tá ficando comprido o comentário, desculpe… mas é isso ai. Abraços

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  2. Tudo muito bom, tudo muito bem. Mas, será que, pelo menos de vez em quando, só pra experimentar, não daria pra ter um pouco de jornalismo nesse novo jornalismo em que tecnologia é começo, meio e fim? Quando falo de jornalismo, falo da essência do jornalismo, a reportagem. As reportagens sumiram do mapa, salvo as exceções de praxe. Repórter, hoje, não vai pra rua, não sente o cheiro da cidade e das pessoas. Vai, quando muito ao shopping. Usa o teclado do computador pra achar, virou editorialista, panfletário, blogueiro. Fecha matérias de 10 linhas pros jornais, de 20 segundos pras tvs. Acha que o leitor/telespectador tem pressa o tempo todo, que se satisfaz com tão pouco mesmo quando o assunto é interessante. E os patrões, claro, adoram tudo isso. Continuam faturando alto e pagando cada vez menos. Exigem dois, três idiomas de quem tropeça no português. Falo do que conheço. Estou no mercado faz tempo, já passei por algumas das maiores redações do País, e enfrentei sem traumas transições como da máquina de escrever para o computador, além de ter pulado dos jornais para a televisão. Posso ser um dinossauro, mas vou viver convencido de que a melhor tecnologia disponível é o meu cérebro.

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  3. Avatar de henrique de oliveira
    henrique de oliveira

    A verdadeira mudança do jornalismo tem que começar pelo jornalista que tem que primar pela verdade dos fatos e da informação , acima de tudo ética.Não pode mais ficar nessa de formar opinião pois o grande público não aceita mais ser tangido pela imprensa.
    Não nos interressa se o tabloide vai ser de graça ou custar pouco , ou ter 500 paginas , o que a maioria quer é só a informação e a verdade pura e simples mais nada.

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  4. _Olá! em Curitiba, o jornal O Estado do Paraná vai encerrar sua “versão impressa” e vai ficar somente no online. Seu proprietário – Paulo Pimentel, que já vendeu sua tv para o Ratinho [aquele do SBT] –, jurou que nenhum jornalista será demitido, mas fará parte da redação virtual. Até agora, ninguém fora da “casinha” sabe como isto será feito, pois o atual site não tem “cara” de jornal online. Com este anúncio, fica clara a intenção de reduzir custos com uma audiência que não lê mais jornal impresso, ou porque não tem tempo, não gosta de papel, ou prefere “ouvir” o que diz rádio e tv. De qualquer forma, soluções como a do The daily é assumir que uma nova plataforma digital precisa ser acessível e que os veículos estejam no controle do sistema de pagamento. Terceirizar a cobrança vai tirar o poder de negociação com anunciantes e o potencial multimídia dos tablets/celulares.

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  5. […] que eu comentei, na semana passada, na crítica ao The Daily começou a ganhar espaço nesta […]

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  6. […] muda muito em relação ao que era comentado sobre o assunto. A Apple fica com uma porcentagem de 30% com as assinaturas feitas pela App […]

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  7. […] 3 semanas o The Daily, jornal/aplicativo da NewsCorp, foi […]

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