Games para fazer jornalismo

Apesar de todas as mudanças prometidas pela internet, a prática do jornalismo ainda permanece a mesma. Isso se reflete na estética de muitos produtos da área.

A home dos sites de notícias lembram mais uma capa de jornal impresso (manchete/submanchete/foto), vídeos são produzidos como se fossem feitos para serem vistos na TV – com jornalistas na bancada, de tailleur e microfones em punho.

E mesmo novas plataformas, como Facebook e Twitter, ainda são utilizadas como broadcasting. Eu proponho um tema, uma pergunta e vocês respondem daí, de onde estão.

Ou seja, as ferramentas mudaram, mas o modo de fazer jornalismo continua igual.

De todo modo, isso não é ruim. O jornalismo deve manter algumas de suas práticas históricas como a de questionar tudo e a todos, adiantar assuntos, não falar somente do que já aconteceu, e a de ser instrumento para que as pessoas possam tomar decisões.

A prática do jornalismo é essencial para a democracia e para a própria internet. As empresas de internet prosperam, de forma sustentada, justamente em países onde a imprensa é fortalecida, pois muitas delas, como a Google, por exemplo, trabalham justamente com a abundância e não a escassez de informações.

Quanto mais informação circulando livremente, melhor.

Porém, não há como negar que ainda se aproveita muito pouco do potencial da internet. Em meio a esse questionamento que vem desde a criação da web, surgiu um formato que, ao mesmo tempo, causa estranheza e curiosidade – os newsgames. Que nada mais é do que a ideia de utilizar games para explicar um fato complexo ou passar informações.

Não é regra, mas, para os profissionais nativos da internet, o novo formato causa curiosidade. Afinal de contas, muito deles foram criados em torno de vídeos-games. Para os mais velhos, a sensação é de ceticismo.

Quem acompanha o blog sabe que o assunto sempre me interessou. Como muitos da minha geração, o Atari serviu como porta de entrada para o mundo dos computadores. Vídeos-games fazem parte do meu dia a dia. Sempre tive um.

Pois bem, games, por si só, não são jornalismo, assim como blogs e plataformas de redes sociais. Tudo depende do uso que você dá para eles, o que você faz com eles.

Mas, por outro lado, não faz sentido achar que games e jornalismo são um casamento forçado. Se a gente for ver, os dois estão juntos há muito tempo.

Basta lembrar dos jogos de palavras cruzadas, que até hoje servem para vender jornal. Pesquisa feita pela New York Times Company revelou que 54% das pessoas admitem que compram, de forma assídua, um jornal por causa das palavras-cruzadas.

De olho nisso, desde 1942, o NYTimes tem um editor de palavras-cruzadas e o game já foi parar na página de opinião. Em 2003, o Patriot Games serviu para o jornal mostrar, por meio de um jogo de palavras-cruzadas, a sua linha editorial a respeito de questões políticas nos EUA.

Além disso, diariamente o jornal usa palavras-cruzadas como isca para que os leitores leiam outras seções do jornal tanto na versão online bem como na impressa. E ainda mantém no ar o blog WordPlay, dedicado ao jogo de cruzar palavras.

O Telegraph, por sua vez, em sua operação digital, já faz dinheiro com games. Mantém no ar um hotsite que reúne games casuais e newsgames. O acesso é cobrado e as pessoas pagam 4,99 libras por mês (mais ou menos R$13,00). É uma receita a mais para o jornal, que tem mais de 150 anos.

Outros já utilizam os newsgames como um poderoso termômetro para avaliar o impacto de um assunto na audiência. A rede de rádios American Public Media, por exemplo, usa o newsgame Budget Hero (sobre o sistema financeiro dos EUA) como instrumento de feedback.

A partir dos dados obtidos durante a peformance dos jogadores, a rádio consegue saber o nível de entendimento sobre um assunto.

Precisamos aprofundar mais isso, explicar isso, deixar de lado esse assunto, são alguns dos questionamentos quando da análise dos dados.

Se a gente for mais a fundo e examinar o conceito de “jogar”, veremos que esse casamento entre jornalismo e games é mais plausível ainda. Jogar é movimentar-se livremente dentro de uma estrutura rígida. Não importa se o PacMan ou a última versão da série Call of Duty, games são, acima de tudo, exercícios de tomada de decisão – por meio da simulação, ajudam você a ver os prós e contras de uma decisão.

Da mesma maneira, a função do jornalismo é ajudar as pessoas a tomarem decisões, a mostrar os prós e contras de um cenário. Devo sair para o feriado? Vai chover? Em quem devo votar? Por que é melhor votar num e não no outro? O que devo fazer com minhas economias? Vale a pena comprar um tablet? E uma TV 3D?

Ou seja, decisões. Jornalismo e games têm mais em comum do que a gente pensa.

Todos esses exemplos são utilizados pelo pesquisador Ian Bogost para explicar a viabilidade dos newsgames em seu livro Newsgames: Journalism at Play (208 páginas/ Editora MIT Press), primeiro a abordar o formato que tenta reforçar a união entre games e jornalismo.

Bogost é cofundador da Persuasive Games, startup pioneira na produção de newsgames, e que já prestou serviços para o NYTimes e a CNN. Além disso, é professor de literatura e de comunicação no Instituto de Tecnologia da Georgia. O livro foi escrito em parceria com Simon Ferrari e Bobby Schweizer, alunos de Bogost.

O termo newsgames foi criado em 2003 pelo designer Gonzalo Frasca, desenvolvedor do September 12th, considerado um dos primeiros newsgames, que simula o combate ao terrorismo. A intenção é fazer com que as pessoas percebam, por meio da simulação, que o terrorismo deve ser combatido com inteligência, e não com mísseis e mais violência.

Ou seja, de forma quase direta, o jogo endossa uma opinião.

Para facilitar o entendimento, Bogost divide os newsgames em categorias.

Editorial games – são jogos sobre eventos atuais ou que ainda estão em curso, por isso trabalham com cronogramas de produção curtos. Normalmente, são desenvolvidos com a intenção de persuadir os leitores e de mostrar uma linha editorial. Seriam equivalente às charges publicadas na seção de política de um jornal. Exemplo – September 12th e Madrid

Tabloid games – como o nome diz, têm como referência escândalos e noticiário de fofocas. São produzidos com base em estruturas de jogos já existentes. Exigem pouquíssimo tempo de produção, por isso são muito utilizados.

Normalmente, a intenção é atrair tráfego ou servir de isca para outra seção do site. Muitas vezes, exige-se que o leitor já tenha pré-conhecimento do assunto tratado. Exemplos – Escape Paris, em que você ajuda Paris Hilton a escapar da prisão, e Mucca Chucka, no qual você tem que auxiliar Heather Mills a se separar do ex-beatle Paul McCartney.

Reportage/documentary games – são os menos comuns, visto que exigem pesquisa e certo tempo de produção. Via de regra, usam como base um evento que já teve um desfecho. Sua função, muitas vezes, é reconstruir/simular uma experiência pessoal emocional para entender melhor um fato. Exemplos – JFK Reloaded, em que você revive o assassinato de John F. Kennedy, do ponto de vista do assassino do presidente americano; e Cutthroat Capitalism, publicado pela Wired em 2009.

Segundo Bogost, esse último é o que melhor mostra o potencial do uso de games no jornalismo – simular como as coisas funcionam por meio da construção de modelos com os quais as pessoas possam interagir.

Cutthroat Capitalism é sobre a ação de piratas na Somália, durante o ano de 2009. No jogo, você é um pirata (ladrão/sequestrador de navios) que tem como missão conseguir uma certa quantidade de dinheiro e recrutar novos integrantes para a sua “equipe de piratas”.

O jogo foi publicado junto com uma matéria correspondente na edição da Wired. Enquanto a versão impressa mostrava a ação dos piratas na Somália, do ponto de vista das empresas de transporte marítimo; Cutthroat Capitalism registrava-a, do lado dos piratas.

E seguia além – forçava os leitores a entender a pirataria a partir da experiência simulada pelo newsgame. No fim das contas, mostrava como o sistema de pirataria funcionava como um todo. E é neste ponto que está um dos diferenciais dos newsgames, ainda pouco explorado. Poder ir além do hardnews, do factual.

Enquanto que, num caso de contaminação alimentar, as redações em geral se preocupariam apenas em noticiar o fato, haveria a possibilidade de revelar como funciona toda a indústria de alimentação por meio de um newsgame

Newsgames: Journalism at Play é um livro pioneiro. Tomara que não seja o único, pois grande parte de seu conteúdo pode ser encontrado na internet em artigos do próprio Bogost.

O próprio livro é curto. Das 208 páginas, apenas 180 são realmente com conteúdo.  Fica clara a falta de pesquisas na área de newsgaming. Bogost não cita qualquer estudo indicativo de como as pessoas consomem os newsgames. Qual é a taxa de retenção das informações? O público percebe alguma diferença significativa? E a usabilidade deles?

O autor deixa evidente um problema de momenclatura que persiste na área. A linha entre o que é newsgames e infográfico interativo ainda é muito tênue. Ambos trabalham com mecânicas usadas em games.

Em suma, Newsgames: Journalism at Play é mais sobre “games” do que “news”. Persuasive Games: The Expressive Power of Videogames, livro do mesmo autor, parece ser bem mais completo (mais para frente, também devo comentá-lo por aqui).

O ponto alto de Newsgames: Journalism at Play é quando Bogost aborda os “games comunitários”, tipo de newsgames pouquíssimo explorado, que envolve várias pessoas na solução de um problema comum e tem reflexo no mundo offline.

Em 2009, o jornal Rochester Democrat and Chronicle, em parceria com a Instituto de Tecnologia de Rochester, promoveu o “Picture Impossible” no qual os leitores da publicação eram convidados a desvendar enigmas escondidos pela cidade de Rochester, nos EUA.

Para facilitar a solução dos enigmas, os leitores eram convidados a formar grupos.

O objetivo era fazer com que as pessoas explorassem a cidade e se interessassem mais pela economia e informações locais. Os enigmas eram relacionados a fatos históricos ou recentemente noticiados pelo jornal da cidade. Uma espécie de ARG jornalístico.

Após ler Newsgames: Journalism at Play, duas coisas ficaram evidentes para mim.

Primeira, talvez devido ao seu caráter ainda experimental, as iniciativas mais interessantes de newsgames estão surgindo de startups e não de grandes veículos. É lógico que depois essas inovações são absorvidas por eles. Ex: NYTimes e CNN, que têm newsgames em seu portfolio.

E a segunda coisa – a sensação é que os newsgames sofrem do mesmo preconceito dos games em geral – não são tratados como uma mídia séria por parte do público. Somente serão reconhecidos como viáveis na hora em que as pessoas perceberem que o grande desafio para quem produz conteúdo não é simplesmente mudar de plataforma – antes papel, agora digital -, mas sim – mais desafiador e profundo – , buscar novas formas de contar histórias.

Veja também: Tecnologias para curar a escassez de atenção na mídia impressa

Crédito das fotos: ColorMeKatie (1), Declam TM (2), Incurable Hippie (3), Gnack (4), reprodução (5,6, 7 e 8)

10 respostas a “Games para fazer jornalismo”

  1. Avatar de Eduardo Vasques
    Eduardo Vasques

    Muito bom o texto Tiago. Creio que o maior problema da utilização das ferramentas digitais está na formação. As universidades e cursos teimam em querer dividir os temas. Na cabeça deles, jornalista é jornalista e ponto. Não pode nem deve avançar sobre programação, infografia e assim por diante. Já participei de várias discussões acaloradas sobre o gênero e os jornalistas, em sua grande maioria, são contrários a essa integração de funções. Uma completa besteira, mas ainda realidade. Por essa razão imagino que as ferramentas foram criadas, mas o jornalismo continua o mesmo de sempre. Penso que o mix de profissionais experientes (que praticam os conceitos antigos do jornalismo de apuração) com os jovens (conectados) parece não funcionar em sua plenitude e ainda vai demorar um bom tempo para engatar. A preocupação está mais centrada na parcialidade (defesa de interesses próprios) e na entrega (quantidade) e não na qualidade ou apuração, mas isso é outro papo.

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  2. […] um post foda, como de hábito, do Tiago Dória. « É coisa […]

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  3. Excelente.

    Sou tecnólogo em Jogos Digitais pelo Senac de São Paulo, e uma das minhas motivações a entrar na área foi justamente por reconhecer o potencial expressivo desta mídia. Embora seja a industria de entretenimento mais lucrativa atualmente, os Games omitem-se em seu papel como veículo de expressão, tanto por desinteresse de seu público quanto, e por consequência, de seus produtores.
    Espero q iniciativas como esta, que transcendem o paradigma de "entretenimento" e faça uso do potencial de plataforma de conteúdo dos jogos se consolide e ache seu público dentro do mercado.

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  4. Muito interessante! Este tipo de game poderia ser usado nas escolas também, para fazer os alunos se interessarem por assuntos mais áridos. E me chamou a atenção a possibilidade de utilizar o game para se colocar na pele de outras pessoas, experimentar situações, dilemas, o que poderia aumentar nossa capacidade de reflexão e compreensão sobre diversos assuntos. Vou pesquisar mais sobre o tema. Valeu!

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  5. […] colegas acham os newsgames rídiculos? Talvez aí esteja uma oportunidade […]

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  6. […] Newsgames: Journalism at Play, de Ian Bogost (208 páginas/ Editora MIT Press) Quando o assunto surgiu em 2008 ninguém imaginou […]

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  7. […] o livro, dá pra ter um gostinho do assunto. O, já citado, blog do Tiago Dória tem uma boa análise/resumo da obra […]

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  8. […] – Games para fazer jornalismo Jornais e API – New York Times não é mais um jornal/ Como estão as APIs? Governo aberto – […]

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  9. […] pesquisador ficou mais conhecido no ano passado, quando lançou Newsgames – Journalism at Play, livro pioneiro sobre o formato que mistura games e notícias e que eu comentei aqui, no […]

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