Ainda não caiu a ficha de que o Twitter é visto como um "serviço público"

Algumas pessoas pediram-me para comentar a decisão do Twitter de suspender o perfil de um jornalista que criticou a cobertura das Olímpiadas feita pela emissora americana NBC, parceira editorial do serviço de microblogging.

Para quem pegou o bonde andando, a história é rápida. Na semana passada, Guy Adams, jornalista do The Independent, publicou diversos tweets criticando a cobertura das Olímpiadas realizada pela emissora NBC. As críticas eram direcionadas à atitude da emissora de não transmitir ao vivo a abertura dos Jogos Olímpicos. A NBC preferiu aguardar até a entrada do horário nobre.

Há 15 anos esse atraso passaria despercebido, nem causaria tanto incômodo, mas, hoje em dia, com o uso do Twitter como uma caixa de comentários da TV, a conversa é um pouco diferente.

Para os telespectadores americanos, bastou entrar na internet para ler todos os tweets sobre a cerimônia de abertura publicados pelo resto do mundo e perceber o quanto a NBC estava errada em atrasar a transmissão.

Adams chegou a publicar o email de Gary Zenkel, executivo da NBC responsável pela transmissão, para que as pessoas enviassem reclamações. O Twitter entrou em contato com a NBC e resolveu suspender a conta do jornalista. Apesar de o email de Zenkel ser público, a suspensão teve como justificativa o fato de o jornalista ter publicado no Twitter informações pessoais sobre terceiros, o que vai contra a política de uso da rede de microblogs.

Em pouco tempo, o caso virou trending topics e ganhou destaque em sites de notícias e blogs de mídia. A NBC e o Twitter voltaram atrás, pediram desculpas públicas e a conta do jornalista foi reativada.

O que fica evidente neste caso é o quanto o Twitter é visto como um bem público. Na maioria das críticas, as pessoas tratavam a rede de microblogs quase igual a um “serviço público”, semelhante ao fornecimento de água e luz e ao saneamento, algo que não pode ser retirado indiscriminadamente de uma pessoa.

É certo que o Twitter é uma empresa privada. Como qualquer outra, busca acumulação (lucro permanente + crescimento). No entanto, fica claro que as pessoas têm a expectativa de que a rede de microblogs esteja sempre ao lado de valores democráticos e de liberdade, e que nunca adotará qualquer medida que coloque a liberdade de expressão dos usuários em segundo plano.

Essa expectativa tem certa explicação e é até positiva, pois mostra que o serviço de microblogging tem impacto na vida das pessoas e ganhou um grau de prestígio entre os usuários, o que, por outro lado, gera responsabilidade.

Às vezes, dá impressão que os executivos do Twitter ainda não perceberam isso.

Não é a primeira vez que isso acontece na história dos negócios e das tecnologias. Ao terem assumido papéis fundamentais na expansão da telefonia em território americano, operadoras, como Bell e AT&T, passaram a ser vistas pelos usuários e pelo mercado dos EUA como “serviços de interesse público”.

Nessas horas é quase impossível não concordar com o pesquisador Eli Pariser. O Vale do Silício precisa ter uma noção melhor da responsabilidade que tem em mãos. Eles não estão produzindo somente código, mas serviços que têm um forte impacto social e moral e que, claro, geram uma grande expectativa nas pessoas.

Veja também: A morte de Bin Laden e as 7 fases do Twitter

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