De uns tempos para cá, os principais debates sobre os efeitos da internet foram tomados por uma série de pesquisadores, acadêmicos e articulistas que têm uma postura mais crítica em relação aos últimos avanços tecnológicos. É como se a poeira e a euforia iniciais dos nos 90 e começo de 2.000 tivessem baixado e algumas pessoas começassem a apontar nuances que antes eram imperceptíveis.
Andrew Keen é hoje um dos mais importantes ícones desse movimento ainda sem nome. Em 2007, o historiador inglês estreou com o livro Culto ao Amador, no qual fazia críticas hoje comuns à internet. A supervalorização do conteúdo amador na web era um dos principais alvos do historiador, o que lhe acabou rendendo o título de “anticristo da web”.
Keen volta ao mercado de ideias com o recém-lançado Digital Vertigo (256 páginas/Editora St. Martin’s Press – no Brasil, o livro será lançado em agosto pela Zahar). Se no primeiro livro o historiador parecia um “Pedro de Lara da internet”, atirando contra tudo e todos, em Digital Vertigo muda a postura, adota um tom até que otimista e foca as suas críticas na questão da Big Data e no pensamento único que move os negócios na internet.
Para Keen, viramos mercadoria na internet. Hoje o Big Brother não está mais nos governos ou nas grandes empresas, mas também nas próprias pessoas, que hoje podem realizar um maior controle social sobre os seus contatos.
E mais. A internet vive do passado. Quanto mais competitiva e atomizada a sociedade, mais idealizamos o “social” ou um histórico tempo distante em que, supostamente, as pessoas eram mais unidas e colaborativas.
Segundo Keen, os ideais de colaboração e transparência que pautam a internet dizem mais sobre como gostaríamos que fosse o presente do que sobre realmente ele é. Longe da ficção, o mundo é cada vez mais competitivo e fragmentado – o mercado está calcado cada vez mais em um clima de guerra, o roubo de informações é maior entre as empresas, a polarização de ideias cresce, os relacionamentos são, cada vez mais, de qualidade ruim e duração curta, pessoas são tratadas com frequência como simples ativos do mercado financeiro.
Em 1970, no best-seller Choque do futuro, o escritor e pesquisador Alvin Toffler já adiantava que, quanto mais individualizada a sociedade, maior o amor dela pelo “social” e pela idealização de um passado longe da dura realidade.
O próprio título do livro de Keen casa com essa análise. É uma alusão ao filme Vertigo (1958), de Alfred Hitchcock, em que um homem vive preso a um passado, apaixonado por uma mulher que nunca existiu.
Para Keen, toda essa situação acontece porque a história se repete. Não de forma idêntica, mas ela sempre se repete.
Para compreender essa colocação no contexto da internet, é necessário entender que o nascimento e a morte da contracultura dos anos 60 e 70 estão fortemente ligados ao surgimento da rede. A internet e os computadores se tornaram um abrigo seguro para os órfãos do “Verão do Amor”.
A geração do “paz e amor” não morreu, está agora online. Ela é quem pauta toda a ideologia por trás da internet, argumenta Keen.
Não é à toa que o matemático Norbert Wiener e o filósofo Marshall McLuhan são os gurus da “geração digital”. Por meio de seus ideais de aldeia global, nos levam a um passado pré-industrial, onde supostamente as relações sociais eram mais consistentes, colaborativas e produtivas. Algo longe da realidade atual.
Keen nos lembra que Wiener e McLuhan também foram dois ideólogos do “Verão do Amor“. Ajudaram uma geração inteira a “viajar” para um passado distante e que provavelmente nunca existiu, longe da realidade americana dos anos 60 e 70, marcada por uma forte industrialização e competitividade.
O passado sempre volta, ratifica Keen. Semelhante ao “Verão do Amor”, hoje em dia, nas plataformas de redes sociais, podemos ter vários relacionamentos rápidos em que mal conhecemos o outro lado. Isso é visto como normal e até emocionalmente saudável.
Ao mesmo tempo que pregava um retorno à Era Pré-Industrial, o “Verão do amor” promoveu o nascimento de um novo tipo de homem, extremamente individualista, que pensa de forma livre e longe das amarras da sociedade (família, mercado, universidades, igreja). O que importa é o prazer e a liberdade individuais. Pouco importa o que o coletivo (sociedade) pensa ou faz.
A internet estaria promovendo o mesmo tipo de ironia. Ao mesmo tempo em que os ideais de coletividade, colaboração e o conhecimento aprofundado são idealizados, na prática, a internet estaria dando lugar a um novo homem que, cada vez mais, valoriza a extroversão, o narcisismo e as bolhas de conteúdo.
Apesar do “discurso de quebra de poderes”, a internet está criando uma nova elite semelhante à da revolução industrial. Google, Microsoft, Facebook atuam como verdadeiros lobbies no congresso norte-americano, sempre defendendo os seus interesses comerciais.
Segundo Keen, isso não é bom ou ruim, mas é preciso saber que existem esses novos poderes. Com exceção de raríssimos espaços de tempo na história, as pessoas sempre foram governadas por uma elite. A elite agrária, donas de terras, perdeu espaço para a industrial, detentora de grandes fábricas, que agora perde para a digital, donas de grandes bases de dados sobre as pessoas.
A história não se repete somente nestes detalhes. Keen resgata o filósofo Jeremy Bentham, que, no séc. XVIII, idealizou o Panopticon, estrutura onde os habitantes eram observados por todos – 24 horas por dia. Bentham acreditava que a transparência radical tornaria a sociedade mais feliz, responsável e virtuosa.
Segundo Keen, o Panopticon se mostrou como um erro, da mesma forma que a atual ideologia de que devemos compartilhar tudo com todos na web é falha.
A propósito, Keen recupera os discursos e escritos de Bentham. De uma maneira quase assombrosa, eles se assemelham bastante aos discursos mais inflamados proferidos nos badalados eventos sobre internet de hoje em dia.
Digital Vertigo tem algumas lacunas, comuns em livros sobre os efeitos da internet e dos computadores. Keen (foto acima) seleciona e cita somente estudos que vão ao encontro de suas ideias. E a gente sabe que, atualmente, é fácil encontrar pesquisas que reforçam qualquer argumento. A internet faz bem à saúde? A internet nos deixa burros? O email morreu? Tem um estudo logo ali.
Keen mantém algumas coisas boas do primeiro livro, que o tornou consagrado, como a grande quantidade de referências e pesquisas. Mesmo que você não concorde com as colocações do historiador, a leitura de Digital Vertigo vale justamente pela contextualização histórica, por mostrar que sempre existe uma filosofia por trás de todo processo de mudança.
Diferente do primeiro, o segundo livro tem uma tônica mais otimista. Keen vai ao encontro das ideias do contemporâneo Howard Rheingold, autor de Net Smart, e mostra que, à medida que as pessoas se tornam mais experientes, elas não caem mais nas armadilhas e distrações proporcionadas pelo mundo digital.
Um dos primeiros sinais dessa consciência é o reconhecimento atual de que empresas como Facebook, Google, Zynga, Groupon são iguais a qualquer outra. Buscam, na ponta final, gerar acumulação (lucro permanente + crescimento).
O historiador mostra que a queda do número de usuários e o tempo de uso do Facebook nos EUA, um dos maiores mercados consumidores de tecnologias da informação, já poderiam ser um sinal de que caminhamos para nos tornamos consumidores mais críticos de tecnologias da informação (atualmente, o crescimento da plataforma de rede social está nos países emergentes).
Ao mudar mais de 10 vezes, do dia para a noite, a política de uso e privacidade da plataforma de rede social, o Facebook teria perdido a confiança dos usuários mais experientes de internet.
Em Digital Vertigo, Mark Zuckerberg, criador do Facebook, é retratado como um cara talentoso, mas inexperiente – vive de ideias que parecem novas e descoladas, mas que são do passado. Ao defender a transparência radical, que já se mostrou falha no passado, e que o homem deve ter uma única identidade, repete o passado e revela um desconhecimento sobre a complexidade humana.
Não percebe que o homem é complexo, feito de segredos, mistérios, nuances e várias identidades, e que uma transparência radical pode ser, na realidade, opressiva e totalitária. A tirania da maioria é justamente a morte da liberdade individual.
Segundo o analista de mídia Wagner James Au, essa obrigação do uso de nomes autênticos e de uma identidade única no Facebook é justamente o calcanhar de Aquiles da plataforma de rede social. Ao saber que os nossos nomes verdadeiros estão em jogo, dificilmente vamos compartilhar, comentar ou curtir conteúdos, marcas e interesses que nos deixem constrangidos perante aos outros.
Por isso, o uso do Facebook é muito mais uma performance que qualquer outra coisa. Existe uma autocensura muito grande por parte dos próprios usuários. É uma situação bem diferente da utilização de um site onde os usuários podem usar pseudônimos e assim se expressarem melhor.
Para o analista, alguns anunciantes já estariam percebendo isso – que os dados do Facebook são bem menos “verdadeiros e espontâneos” do que os de um serviço que permite o uso de pseudônimos – Twitter, YouTube, Google etc.
Para encerrar o livro, Keen cita o filósofo John Stuart Mill (utilitarismo), um dos primeiros a analisar o efeito de uma sociedade conectada nos indivíduos, para lembrar-nos – o que nos difere de outras espécies é justamente a nossa capacidade de desconectar-se, de se separar da manada, de saber pensar sozinho, de meditar e ficar consigo mesmo. O que “não compartilhamos” é tão importante quanto o que compartilhamos.
Enfim, o que distingue o homem é justamente o “não ser social”.
Veja também: Gostamos de compartilhar sentimentos e não fatos






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