O que a Barbie tem a ver com tecnologia

No mundo, uma nova boneca Barbie é vendida aproximadamente a cada 3 segundos. Por si só essa frase justificaria a leitura de Barbie e Ruth (288 páginas), livro sobre a história de Ruth Handler, mulher que criou a boneca Barbie e a empresa de brinquedos Mattel.

Mas o que me motivou a ler o livro, o primeiro de 2010 da seção de livros do blog, foi o fato dele ser escrito por Robin Gerber. Advogada e professora de gestão na Universidade de Maryland, Gerber tem um dos melhores textos que conheço para biografias.

Ela também é autora de Katharine Graham: The Leadership Journey of an American Icon, livro sobre outra mulher que se destacou no mundo empresarial, Katharine Graham, que foi proprietária do jornal Washington Post.

Ao ler Barbie e Ruth, a impressão é de estar assistindo a um programa de TV sobre grandes personalidades. Gerber é cuidadosa nas aberturas e nos fechamentos dos capítulos.

Segura a leitura.

Porém, nem precisava desse motivo para ler o livro. Barbie é um dos mais fascinantes produtos de massa e versa também sobre apropriação de tecnologias por parte de empresas (não são somente pessoas que dão a tecnologias novos usos que nem seus inventores imaginavam).

No caso, a Barbie foi um dos primeiros brinquedos a utilizar a tecnologia de PVC. Nos anos 40 e 50, ninguém imaginava utilizar PVC e o seu processo de moldagem para um uso comercial mais amplo. Na época, o material era utilizado para fazer bolas de golfe e saltos de sapato.

PVC era visto como uma mistura de borracha e metal, e trazer essa tecnologia para o mundo dos brinquedos foi revolucionário na época.

Para criar a boneca de aparência incomum (na época, as bonecas tinham aparência de bebê), com detalhes como unhas e sobrancelhas, era necessário usar um tipo de material especial. E o PVC se mostrou o ideal. Mas até chegar a essa conclusão foram mais de 3 anos de experimentos com moldagens e outros processos de produção.

Houve ainda o processo de produção e costura das roupas da Barbie, que eram minúsculas. A Mattel foi obrigada a “abrir” o seu projeto e buscar a tecnologia para manufatura das roupas no Japão, que, mesmo assim, precisou ser aperfeiçoada.

Enfim, a Barbie é resultado de um longo período de amadurecimento e experimentação de tecnologias.

Do ponto de vista de gestão, por meio da Barbie, a Mattel foi uma das primeiras empresas de brinquedos a perceber o quanto é possível tirar vantagens do pós-venda. A principal fonte de receita da Mattel com a Barbie não vem da venda da boneca em si, mas de licenciamento e principalmente das milhares de coleções de roupas e apetrechos que são vendidos depois.

Do ponto de vista de comunicação, foi a primeira voltada para área infantil a ter uma estratégia de marketing focada em TV, mídia que, nos anos 50, estava apenas começando nos EUA, mas que Ruth Handler acreditou que tinha potencial.

O pioneirismo valeu a pena. Com pequenas inserções em programas infantis da ABC, as vendas da boneca triplicaram, o que fez a empresa perder o controle de sua demanda.

Além disso, com a Barbie, a Mattel foi a primeira empresa de brinquedos a focar a sua mensagem publicitária nas crianças, os verdadeiros tomadores de decisão na hora de comprar um produto, e não nos pais que, na época, acreditava-se que “controlavam” o dinheiro.

Em questão de tempo, a Barbie se tornou um “vício”, conforme foi rotulado pelo NYTimes. Mas também alvo de setores mais conservadores, que não aguentavam ver as suas crianças brincando com uma boneca que era tão sexy e elegante.

Em relação às críticas, de criar um esteriótipo de mulher, Ruth geralmente respondia que a Barbie não era o fim do mundo, tinha um caráter até que educacional. Muitas mulheres aprenderam suas primeiras noções de moda, combinação de cores e texturas em roupas e penteados por meio da Barbie, explicou anos depois.

Barbie e Ruth é um livro um pouco decepcionante na medida em que não consegue explicar por que a Barbie se tornou um ícone mundial e é pobre em pesquisa de material fotográfico. Há apenas uma foto em todo livro.

É, antes de tudo, sobre bastidores.

A história de Ruth, “mãe da Barbie”, começa ainda nos anos 20, filha de imigrantes judeus poloneses, que desde pequena mantinha um espírito competitivo e de independência, que serviu de combustível para fundar, ao lado de seu marido, a Mattel em 1945.

A da Barbie começa nos anos 50, quando em uma viagem à Alemanha, Ruth conhece e compra uma boneca chamada Bild Lilli, que serviu de inspiração para fazer um brinquedo quase idêntico, mas com aparência mais adulta e versátil  – “da forma como as meninas queriam ser quando crescerem”.

Uma boneca que poderia ser ao mesmo tempo atleta, estudante, piloto da Força Aérea e candidata à presidência. O que sempre fez parte da estratégia, a Barbie ser várias coisas ao mesmo tempo. “Nós, garotas, podemos fazer qualquer coisa”, dizia o slogan de campanha da boneca no começo dos anos 80.

O nome Barbie veio da filha de Ruth, Barbara Handler, e Ken, o namorado da Barbie, lançado pouco depois, de seu filho, Ken Handler (Ruth tinha mania de colocar o nome de seus familares nos produtos que a Mattel lançava).

Em sua característica de escancarar os bastidores, Barbie e Ruth começa na fundação da empresa, passeia pela luta de Ruth contra o câncer, pela fase em que a Mattel entrou em crise, nos anos 70; Ruth foi afastada da empresa e acusada de falsificar documentos contábeis, o que lhe rendeu uma condenação e a obrigação de prestar serviços comunitários (nessa parte, o livro assume um ritmo de trailer policial).

O livro chega até a morte da empresária, devido ao câncer de mama em 2002. Antes, para em 1994, no golpe mais duro na vida de Ruth, a morte de seu filho Ken, que faleceu devido a complicações decorrentes da AIDS. Ken era homossexual, o que ele veio a admitir somente meses antes de sua morte.

Por ironia do destino, antes de assumir sua opção sexual, Ken, o boneco, já era associado à homossexualidade por parte da comunidade gay nos EUA.

Por todos esses detalhes, a vida de Ruth e a sua principal criação, a Barbie, dariam um filme. Houve uma tentativa nos anos 80, mas a ideia naufragou.

Com ou sem filme, o livro de Berger nos desperta para o detalhe de que, por trás de todo objeto que faz parte de nosso dia-a-dia, existe toda uma história, não somente de criação, mas de pesquisa, amadurecimento e apropriação de tecnologia e ideias que a gente nem imagina.

Veja também:
Caminho para a imortalidade digital

Crédito das fotos:  Aloha, divulgação e Loren Javier

38 respostas a “O que a Barbie tem a ver com tecnologia”

  1. Como de costume, post foda.

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    1. Não sabia que a Matel que fabricava a barbie. E também não sabia que o Ken era gay
      o.O

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  2. Adoroo a Barbie e o Ken
    quer dizer que a mulher que criou a Barbie tinha um filho
    que faleceu chamado Ken e passou a criar um personagem para ser namorado da barbie??
    bjs!!! se estiver alguma coisa erra por favor tente entender o que escrevi!!
    rsrsrsrsrsrsrs

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  3. EU TENHO MUITASS BONECAS BARBIE
    E OLHA QUE EU TENHO 11 ANOS…HOJE EM DIA AS MENINAS PARAM DE BRINCAR
    COM 10 ANOS Ñ É VERDADE TENHO ROUPA TUDO DE E TUDO QUE EU COMPRO
    É SÓ PENSANDO NESSA BONECA PERFEITA.ADOROOOOOOOOOOO BJS OPS!! 🙂 JÁ TINHA ESQUECIDO TENHO O
    KEN TAMBEM OPHSOPHSOPHSOPHS RSRSRSRSRSRSRS

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  4. Por favor avise-me quando for lançaR uma nova boneca Barbie
    ok!!! bjs 🙂 GABRIELA CUNHA (:

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  5. òtimo review Tiago, só mudaria a palavra “homossexualismo” no texto todo… a OMS aboliu esse termo de seu catálogo desde os anos 70, sendo ele usado erroneamente nos dias de hoje.

    o sufixo ISMO remete a DOENÇA, e homossexualidade não é doença, certo? É uma orientação/opção. Trocando por homossexualidade acho que fica bom.. desculpa se parece policiamento, mas é a vida.

    Vi outro dia, acho que na época, uma reportagem sobre esse livro e fiquei curiosíssimo sobre esse livro, seu post me fez querer lê-lo ainda mais.

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    1. Obrigado. Fiz a modificação no texto. Faz sentido.

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  6. Quando as meninas brincavam com bonecas, elas respeitavam mais seus pais, eram mais doces, puras, sem maldade.
    Hoje, logo aos 10 ou 12 anos, só pensam em namorar, discutem com seus pais, não respeitam mais ninguém e já fazem sexo inconsequente com seus namoradinhos e é por isso que são mães tão cedo.
    Ou seja; ainda não estão preparadas para a vida, logo não vão ter conhecimento e condições de criarem seus filhos o que só faz aumentar o número de jovens desequilibrados.
    Quer dizer: O futuro do País certamente não será a maioria dos nossos jovens.

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  7. Muito bacana parabéns!!

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  8. CARAMBA EU AMO A BARBIE E O KEN ATÉ HOJE , HOJE FAÇO QUESTÃO DE COMPRAR PARA MINHA FILHA DE 6 ANOS. A HISTÓRIA DA RUTH É IMPRESSIONANTE E ESSA DO FILHO DELA EU NÃO SABIA QUE SE CHAMAVA KEN . DEVE TER SIDO UMA MULHER ESTRAORDINÁRIA…

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  9. Mas como nasceu o BOB? ele é o amante ou é o KEN que é o amante?

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    1. Boa pergunta. No livro, ele não é citado.

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      1. o Bob nunca existiu para a Mattel. A Estrela inventou esse nome por achar que “Ken” era muito americano para o mercado brasileiro. A Estrela produziu a Barbie durante alguns anos, esse tipo de contrato é raro, e hoje as bonecas produzidas pela Estrela são muito valorizadas por colecionadores do mundo inteiro. Depois o nome Ken foi adotado no Brasil, e o Bob sumiu. Eles são a mesma pessoa.

        Tiago, estou indicando este post no meu blog sobre bonecas, ok? Excelente post. : )

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      2. Ok Bruna. Obrigado!

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  10. É ,muito interessante esse post.
    A Barbie e o Ken fizeram parte de minha vida toda e até hoje sou apaixonada por ela.
    Livro importante para os amantes da Boneca mais perfeita até hoje!

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  11. Para quem gosta e coleciona, segue um site com bastante variedades: http://www.recantodabarbe.com

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  12. Você pode criar tudo,fazer uma história basta acreditar!!!

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  13. Aiin, que saudds < Hoje em dia as "crianças" só pensam em outras coisas –'

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  14. Quando eu era pequena ouvia uma história de que a Barbie foi inspirada em uma garota de verdade, ela era muito rica e pediu para o pai fazer a boneca dela. AKSPOAKSPAKSKO Fala sério, quem nunca ouviu essa história ?! x)

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  15. Avatar de ELISANGELA E BIANCA
    ELISANGELA E BIANCA

    MINHA FILHA É LOUCA POR ESSA BONECA( BARBIE E O KEN)TEM VARIAS,INCLUSIVE,TEMA DE ANIVERSÁRIO TEM QUE SER DA BARBIE,JÁ DANÇOU ATÉ NO BALLET AS 12 PRINCESAS BAILARINAS,DESPREZA ATÉ AS OUTRAS BONECAS,AVISE-ME QUANDO FOR LANÇAR,gostaria muito ter este livro,OBRIGADO.

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  16. Aiin que saudds ❤ Eu amava a Barbie, tinha váárias inclusive a casinha dela, com cama, geladeira, mesa, talheres e tudo mais… brinquei a infância inteira com essa boneca e só parei aos 13/14 anos. Hoje em dia a maioria das "crianças" nem querem saber disso ><

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    1. eu tenho 11 anos e eu adoro a barbie eu sempre falo qe vo brincar com ela ate os 20 anos nunca vo esqeçer da barbie sempre quando eu entro na net eu ja vo pro saite da barbie

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  17. Este livro parece ser muito bom, pois descreve a vida de uma grande empresaria do ramo de brinquedos, e a criadora da famosa BARBIE.
    A Barbie fez parteda vida de muitas crianças e ate hoje não há uma garota que ainda não brincou com uma barbie na vida.
    A Barbie ao longo do tempo tomou proporções grandes nas brincadeiras das crianças é por isso que poderiamos considerar a barbie com o icone de beleza e elegancia q muitas bonecas não alcaçaram durante mais de 50 anos.

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  18. Tiago Dória adoreeeeeeeeei o documentário. . . parabéns!!!
    Também amei a ideia de fazer um livro contando a história da Barbie da Ruth,
    as crianças e todos mundo né … é apaaaixonadíssimo por essa belíssima boneca 😀
    beijos e parabéns .

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  19. Muito bom o post!!! Parabéns!

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  20. Desde pequena sempre tive muitas barbies, era por ganho de aniversário, natal, dia das crianças e etc… Hoje aos 24 anos, fico muito feliz em saber que existirá logo nas livrarias a história da "mãe da barbie". é muito legal saber dos detalhes e da historia de como tudo começou. Com certeza este livro ficará na minha biblioteca… Obrigada!

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  21. eu sou uma fa faco coleçao da barbie adoro a barbie ela e demais

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  22. Sobre a questão do Bob, ele não era parceiro da boneca Susy?
    Acho que por isso ele não é citado no livro. O Bob não tem nada haver com Barbie e Ken.

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    1. Oi Carol, você está certa.
      Me confundi todo. A Suzie não está ligada à Barbie.

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    2. O namorado da Susi era o Beto. O Bob, como falei ali em cima, era o nome brasileiro do Ken, adotado pela Estrela.

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  23. O comentário do José Augusto é mesmo uma realidade. Hoje tenho 28 anos e um filho de 5. Mas até os meu 15, 16 anos eu brincava de boneca sim. Não tinha uma Barbie (meus pais não tinham condição de comprar), mas me divertia do mesmo jeito. E acho que como a inocência ainda era clara, o respeito pelos meus pais era, e é, mutuo. O que é raro acontecer hoje em dia. Sobre o post da Barbie, é fascinante a história da Ruth e dos bonecos. Ela se confunde. Realmente é de ficar de boca aberta. Acho muito legal quando alguém cria um produto e através da sua história consegue fazer com que fiquemos interessados cada vez mais, justamente pela relaidade que se confunde.

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  24. Uau! Tiago, Acabei de conhecer teu blog e já virei fã. Comentei sobre este livro no meu blog e te indiquei também lá e no Twitter – as pessoas precisam conhecer seu conteúdo fantástico. Parabéns.

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    1. Obrigado, Carmen. Seja bem vinda ao blog.

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  25. que legallllllllllllll

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  26. que d++++++++ se eu podesse eu compravas todas as barbis do mundo é todos os kens !! isso é o meu sonho!

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  27. Fala sério, teeeem coisa melhor pra fikar fazendo…………………….. DÃÃÃÃ! Mas confesso que eu brinco as vezes e é meiguinho!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  28. barbie eu te adoro barbie meu nome e natalie eu tenho 7 anos

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