
O urubu pode até estar voando baixo no NYTimes com a queda do preço das ações, mas o jornal (hoje quase uma plataforma online de conteúdo) não escapa das manchetes de sites que, como este, trabalham com o tema âncora “mídia e tecnologia”.
Durante uma semana, o Nieman Journalism Lab, ligado à Universidade de Harvard, publicou uma série de vídeos de uma visita ao laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento do NYTimes. Um espaço que simbolicamente mostra para onde pode ir a mídia impressa.
Para se situar melhor, vale lembrar que, desde 2006, o NYTimes vem tratando o investimento em pesquisa para criação de novos produtos como algo crucial para o seu futuro. Por isso, a idéia de um laboratório, onde são experimentados novos dispositivos e formas de entregar conteúdo.
Algo diferenciado para o mercado de jornais, mas arroz com feijão para outras indústrias, como a de carros e a de alimentação, que, há muito tempo, têm a pesquisa de produtos como ponto-chave para os seus negócios.

Para quem está dentro do NYTimes a conversa é um pouco antiga. Lá, em 1964, existia uma tal de “Comissão do futuro”, um departamento onde pesquisadores e executivos do jornal avaliavam o impacto e como tirar proveito dos avanços tecnológicos sobre os jornais.
Porém, na atual época de incertezas, a radicalização desse processo faz mais sentido. Como não temos fórmulas prontas, somente pesquisando e experimentando para chegar a algum lugar.
Ocupando parte de um dos andares da sede do jornal em Nova York, o NYTimes Labs trabalha atualmente muito com a questão da multiplataforma, da ubiquidade (onipresença) da informação jornalística, reflexo do posicionamento do NYTimes há alguns anos, de ter uma postura agnóstica em relação às plataformas, não se prendendo a nenhuma delas.
Se posicionar como uma empresa de conteúdo antes de tudo e, mesmo assim, estar presente em várias delas. O jornal não seria impresso, internet, TV ou rádio. Mas tudo isso ao mesmo tempo. Não teria um suporte predominante. Mas plataformas sincronizadas.

Um laboratório como esse tem uma dose de marketing. Ninguém garante que de lá vai sair alguma coisa realmente inovadora e que seja relevante. Talvez sirva mais como fumaça para esconder os antigos erros estratégicos e tecnológicos de um jornal de quase 200 anos.
Mas quem investe num laboratório deste tipo não espera receita a curto prazo. Novas tecnologias demandam risco e investimento a longo prazo.
Foi de lá que saiu recentemente o produto TimesReader 2.0, uma abordagem de entrega de conteúdo como software, algo que começa a ficar comum.
Além da parte de anúncios interativos, a mais importante, o calcanhar de aquiles da indústria, na linha de frente de pesquisas, está a integração de diversas plataformas, do jornal com a TV, por exemplo. Você clica em um vídeo no site do jornal e o mesmo passa em sua TV. Fala-se muito da integração do Twitter com a TV, mas pouco dos jornais e TV (vídeo acima).
Neste sentido, o futuro seria de diversas plataformas trabalhadas sincronizadas e de forma inteligente, como se não existisse fronteiras entre TVs, jornais, redes sociais, computadores, rádios e celulares. Clico numa notícia no site, depois quando o acessaria pelo celular, ele saberia em quais notícias cliquei, por exemplo, e onde estou localizado geograficamente.
Cloud Computing e o uso de padrões abertos (interoperabilidade) seriam o combustível para tudo isso.
No entanto, o que o NYTimesLabs deixa mais explícito é o hiato tecnológico e conceitual do NYTimes em relação a outros jornais.
Enquanto ainda se discute pela 2.976ª vez o diploma de jornalista e a audiência garantida ainda é usada como muleta para não investir em inovação e pesquisa, lá o papo é sobre APIs e os desafios da ubiquidade (onipresença) da informação jornalística aliada à participação em larga escala da audiência.

Justamente por causa dessa mentalidade e do ponto de vista de gestão de negócios chama a atenção a postura do NYTimes.
Ele é líder de mercado em várias áreas do jornalismo, poderia muito bem adotar a postura conservadora típica de empresas líderes de mercado, não mexer em nada, mas, pelo contrário, continua experimentando e pesquisando, como se o jornal um dia fosse começar do zero outra vez.
O que não seria nenhuma novidade. Pelos cantos, Adolph Ochs (1858-1935) dizia que, como produto, o jornal nunca estava acabado, nem tinha começado ainda, sempre tinha que pesquisar, recomeçar. O NYTimes Labs talvez seja apenas o reflexo mais radical desse antigo pensamento do patriarca do NYTimes.
Esse post faz parte de uma série sobre as mudanças tecnológicas no NYTimes e que venho escrevendo desde o começo de 2008.
Crédito das fotos: LaughingSquid
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